Formação de Professores, História, Memória e Práticas Educativas

 A linha investiga as relações entre formação de professores, história, memória e práticas educativas buscando compreender a constituição histórica dessas categorias, bem como suas implicações na educação, a partir da articulação universidade, escola e demais contextos educativos. Os estudos desta linha enfocam: práticas educativas, profissionalização e saberes docentes; história e memória dos sujeitos e das instituições, envolvendo a tradição e o patrimônio histórico-cultural em sua relação com a escola como instância de socialização, preservação e recriação da cultura e políticas. Nas últimas décadas, inúmeros têm sido os debates e reflexões sobre a formação de professores, em nível local, nacional e internacional, expressando profunda e tensa disputa no campo. As próprias posições de entidades nacionais como ANPED, ANFOPE, CONED, MEC e internacionais, como o Banco Mundial, expressam divergências, tanto no campo político como no epistemológico. Nesse sentido, a linha de pesquisa em formação de professores, história, memória e práticas educativas, acolhe no debate acadêmico, no âmbito do Mestrado em Educação, o movimento de reflexão sobre práticas e políticas implementadas pelas instituições no contexto de uma sociedade capitalista, constituída e constituinte de relações sociais concretas, de modo a enriquecer a reflexão teórica e as ações propositivas no campo da formação inicial e continuada de professores. A crescente contribuição das formulações teóricas sobre a formação de professores nas instituições e espaços educativos vem ampliando a compreensão da identidade do campo da educação, desconstruindo o discurso da racionalidade instrumental e tecnicista e denunciando a arqueologia do poder e suas capilaridades nas relações pedagógicas como práticas sociais de poderes e contra-poderes.

 Tais contribuições fizeram prosperar concepções de que a relação entre escolarização e processos formativos não é, apenas, fruto de determinações do processo de desenvolvimento econômico capitalista, mas envolve dimensões subjetivas, políticas, históricas e culturais, produzindo novos sentidos sobre a formação docente. A expressão de valores, concepções, imagens, histórias de vida que marcam as subjetividades são apreendidas através das trocas discursivas que se travam no cotidiano da escola.

 No contexto atual, o campo da formação de professores passa por uma “viragem” (NÓVOA, 1992), que se traduz pela recusa do modelo de racionalidade técnica. Um conjunto de pesquisas, que se intensifica nos anos 80, passa a compreender professores como autores e gestores das práticas educativas e, portanto, possuidores de uma identidade docente e produtores de saberes. Trabalhos sobre os saberes mobilizados por professores em sala de aula apontam a existência de uma epistemologia característica do trabalho docente (TARDIF, 1990). A epistemologia da prática profissional é caracterizada por uma lógica própria, que não se restringe à mera aplicação de conhecimentos. Na verdade, ela é síntese, sempre dinâmica, de um modelo de racionalidade onde saberes universitários dividem espaço com intuição, criatividade, sensibilidade, improvisação e rotina profissional. Os saberes produzidos pelos professores em seu trabalho cotidiano advêm de várias fontes: de sua história de vida, de sua memória escolar, dos conhecimentos adquiridos em sua formação profissional, de sua experiência de trabalho e nas políticas curriculares.

 Fundamentamos nossas opções de trabalho com memória e formação de professores em diferentes abordagens históricas. Entendemos ser por meio da memória que se instauram os vínculos pessoais, sociais e culturais. A memória possibilita reconstrução do passado a partir das tensões individuais e coletivas do presente. Se por um lado a memória pessoal pode ser dispersa e fragmentada, por outro, o conjunto das memórias pessoais constitui a representação que os grupos fazem da realidade. Nesse sentido, compreendemos a escola e as demais instituições educativas, como lugares de memória (NORA, 1993), patrimônios culturais e sociais, afirmando que esses não são apenas materiais, mas também lugares que simbolicamente representam diferentes formas de ser e estar no mundo. É preciso que as manifestações culturais sejam conhecidas para poderem ser legitimamente consideradas como bens patrimoniais, ou seja, bens constitutivos da consciência de um grupo, imersos em um campo de disputa e de negociações, articulados à memória e às identidades sociais. Não falamos de um sentido estático de patrimônio, mas sim atentamos para as formas de produzir, vivenciar e recriar os bens culturais (materiais e imateriais). Nesse sentido, transversalizar educação patrimonial e formação de professores nos possibilita pensar de uma forma ampliada a formação inicial e continuada dos professores abarcando a perspectiva cultural.

 Nossas pesquisas propõem atualizações da relação entre educação e sociedade, que indicam a necessidade de uma cuidadosa atenção aos processos internos da escola e das demais instituições educativas, bem como às práticas dos diferentes sujeitos em seus contextos cotidianos. Tensionando formação de professores, políticas e práticas educativas, esta linha de pesquisa propõe formas de compreensão, intervenção, produção e reinvenção da escola e dos processos educativos como lócus de produção de conhecimento. Em síntese, fazemos nossas opções teóricas e temáticas, dialogando com nossos interlocutores a partir de um lugar determinado, uma Faculdade de Formação de Professores, cientes de outras possibilidades e abertos a novas propostas, face à multiplicidade de concepções e de questões presentes no interior do campo da educação e da formação docente. O que desejamos (com)partilhar remete à identificação e delimitação da linha de pesquisa formação de professores, história, memória e práticas educativas, como centralidade em nosso trabalho de pesquisa e docência no Departamento de Educação da Faculdade de Formação de Professores da UERJ.

Políticas, Direitos e Desigualdades

 A linha compreende investigações sobre a produção dos processos educativos, escolares ou não-escolares, considerando, especialmente, as tensões entre desigualdades e direitos que atuam nessa produção. Os estudos dos processos constitutivos e das manifestações das desigualdades, bem como das expressões de resistência às suas diferentes formas de realização, têm por objetivo a análise dos seus efeitos na formulação das políticas no campo social, em geral, no campo educacional, em suas especificidades, bem como nas práticas educativas produzidas nesse contexto.

 Propõem-se, igualmente, a aprofundar a compreensão sobre as implicações de tais processos nas configurações de direitos sociais, tendo em vista sua formulação, os mecanismos que estes suscitam, as tensões que produzem e as lutas que provocam, bem como suas inscrições nas práticas, ações, projetos, movimentos e políticas presentes no campo da educação.

 Nesta perspectiva, a categoria políticas é compreendida, em sentido amplo, como linhas condutoras da ação em diferentes âmbitos, envolvendo as ações do Estado, mas, também, de todo e qualquer grupo ou instituição social que vise fins clara ou difusamente traçados. Trata-se, nesse sentido, de uma categoria que, referenciada na formulação gramsciana de Estado ampliado (GRAMSCI, 2000), remete a possibilidades teóricas e metodológicas relevantes nos estudos no campo da educação, favorecendo a abordagem tanto de ações sistemáticas constitutivas das políticas públicas, quanto de conjuntos diversos de ações que emergem em processos variados, no âmbito da sociedade civil, que. atravessam, tensionam ou interferem no escopo e nos rumos das práticas do campo da educação e nas ações do Estado, dentre elas as ações referidas à formulação e implementação dos direitos sociais e, portanto, às políticas públicas a eles vinculadas.

 A abordagem de políticas nesta perspectiva remete, também, ao estudo das relações de força que produzem a educação e das relações que esta acaba por propiciar. Projetos, relações, movimentos sociais, gestão educacional, experiências instituintes, práticas sociais e institucionais são os processos mediante os quais são colocados em análise os fundamentos das políticas.

 Trata esta linha de um conjunto de temáticas implicadas com problemas concretos que expressam a multiplicidade de formas de atualização das condições e dos processos de produção de desigualdades. A luta pela consolidação de um Estado democrático remete à categoria direitos, mesclada ao campo das políticas, da subjetividade, do mundo do trabalho, da pessoa cidadã, dentre outros. A categoria direitos permite tecer reflexões sobre os processos de enxugamento do Estado no campo social, de sua retração, expressão de uma política econômica em prol do ajustamento à globalização, e não em prol do compromisso com uma educação voltada para os interesses da maioria. Pensar na perspectiva da conquista de direitos por parte da sociedade e na sua relação com a esfera pública permite problematizar o sentido da responsabilidade social para com o espaço público, para com o papel do Estado e das ações que empreende e, mais amplamente, o sentido da responsabilidade social para com as demandas e lutas em favor dos movimentos sociais e educacionais pela superação das desigualdades.